terça-feira, 27 de abril de 2010

Doidas e Santas


Toda mulher é doida.
Impossível não ser.
A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar o nosso poder de sedução para encontrar the big one, aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá prá ocupar uma vida, não é mesmo? Mas além disso, temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir de vez em quando que somos santas, ajuizadas, responsáveis, e que nunca, mas nunca, pensaremos em jogar tudo pro alto e embarcar num navio pirata comandado pelo Johnny Depp, ou então virar loura e cafetina, ou sei lá, diga aí uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor que a minha.
Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela não tem ao menos três dessas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca. E fascina a todos.

Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota.

Só as cansadas é que se recusam a levantar da cadeira para ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseje mais nada? Você vai concordar comigo: só se for louca de pedra.

Martha Medeiros

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Aonde quer que eu vá...

Mais um momento que atropela...


"Igualzinho ao que acontece com todas as pessoas, num trecho ou outro da estrada, eu já senti tanta dor que parecia que os golpes haviam me quebrado toda por dentro. Não sabia se era possível juntar os pedaços, por onde começar, nem se o cansaço me permitiria movimentos na direção de qualquer tentativa. Quando o susto é grande e dói assim, a gente precisa de algum tempo para recuperar o fôlego outra vez. Para voltar a caminhar sem contrair tanto os ombros e a vida. Um espaço para a gente quase se reinventar.

O tempo passa. O fôlego retorna. Parece milagre, mas as sementes de cura começam a florescer nos mesmos jardins onde parecia que nenhuma outra flor brotaria. A alma é sábia: enquanto achamos que só existe dor, ela trabalha, em silêncio, para tecer o momento novo. E ele chega."

Se for para abondonar
abandone devagar
faça de modo que eu não sinta
em doses homeopáticas (...) saiba,
tua ausência já é FATO que concretizo dia a dia...
Não sei até onde esta ilusão vai, só sei que um dia ainda gostaria de sentir o seu gosto, seu cheiro... você!!!

trecho de Ana Jácomo (apóio)

sábado, 24 de abril de 2010

Sumi...



Sumi porque só faço besteira em sua presença,
Fico mudo quando deveria verbalizar,
Digo um absurdo atrás do outro quando melhor seria silenciar,
Faço brincadeiras de mau gosto e sofro antes, durante e depois de te encontrar.
Sumi porque não há futuro e isso não é o mais difícil de lidar,
Pior é não ter presente e o passado ser mais fluido que o ar.
Sumi porque não há o que se possa resgatar,
Meu sumiço é covarde mas atento, meio fajuto meio autêntico,
Sumi porque sumir é um jogo de paciência,
Ausentar-se é risco e sapiência,
Pareço desinteressado,
Mas sumi para estar para sempre do seu lado,
A saudade fará mais por nós dois que nosso amor e sua desajei
tada e irrefletida permanência.
SINTO A SUA FALTA
Martha Medeiros

sábado, 3 de abril de 2010

Quero mais


Quero uma primeira vez outra vez.
Um primeiro beijo em alguém que ainda não conheço,
uma primeira caminhada por uma nova cidade,
uma primeira estréia em algo que nunca fiz,
quero seguir desfazendo as virgindades que ainda carrego,
quero ter sensações inéditas até o fim dos meus dias.
Quero ventilação, não morrer um pouquinho a cada dia sufocada em obrigações
e em exigências de ser a melhor mãe do mundo,a melhor esposa do mundo, a melhor qualquer coisa. Gostaria de me reconciliar com meus defeitos e fraquezas,
arejar minha biografia, deixar que vazem algumas idéias minhas que não são muito abençoáveis.
Queria não me sentir tão responsável sobre o que acontece ao meu redor.
Compreender e aceitar que não tenho controle nenhum sobre as emoções dos outros,
sobre suas escolhas, sobre as coisas que dão errado e também sobre as que dão certo.
Me permitir ser um pouco insignificante.
E na minha insignificância, poder acordar um dia mais tarde sem dar explicação,
conversar com estranhos, me divertir fazendo coisas que nunca imaginei,
deixar de ser tão misteriosa pra mim mesma, me conectar com as minhas outras possibilidades de existir.
O que eu quero mais?
Me escutar e obedecer o meu lado mais transgressor,
menos comportadinho,
menos refém de reuniões familiares, marido, filhos, bolos de aniversário e despertadores.
E também quero mais tempo livre...e mais abraços.
*Martha Medeiros*