"E se é meu o amparo do teu riso leve
que é como um cantar
Ele aquieta minha ferida
e tudo se esquece"
Carlos GardelEu cheguei um dia a estar preparada pra te receber. Em tudo que eu te cantava, as curvas que meu corpo fazia, todos os meu gestos te diziam "estou pronta".
Eu te olhava, mas não distraidamente, eu estava inteira e despida, ainda sem você, eu estava desamparada, mas te disse mais uma vez "eu sou tua" e eu nem sabia o que seria da gente. Eu não sabia o que você queria de mim, mas sentia de alguma forma que perto de você eu estaria bem.
Eu te buscava, mas não estava te encontrando. Eu estava costurando uma teia de sentimentos com as letras do teu nome, me amarrei.
Eu descobri, veja bem, você sorria das minhas descobertas, sorria quando eu dizia "olha só, descobri que bom mesmo é te ter por perto". Sim, mas eu estava te dizendo que descobri que não dei nó cego. Você me desatou. Me livrou da tua paixão.
Enquanto eu passava por tantas quimeras e te via difícil e tão cheio de motivos pra não estar comigo, meu corpo não pôde suportar. Meu carinho era puro demais para tolerar mais momentos ruins que os de céu azul e nossas mãos desvendando-se.
Te via um homem e você podia ver o quanto eu morria de medo de você me achar infantil por te abraçar bem forte e dizer "não me deixa só porque eu tenho medo", por nos desenhar de mãos dadas, por pintar corações de vermelho e escrever teu nome.
Te provoquei com minha infância incontida. Minha inocência te insultou demais e as minhas gargalhadas te injuriaram.
Hoje eu sorrio muito mais.
Não chame mais o meu nome, você nunca o fez antes, e se grita me perdoa, eu não te escuto mais.
Hoje eu grito, livre, e ainda que tentasse te explicar todos os motivos que me arrancam os sorrisos que já foram tão teus, seria diminuí - los.
Nós nunca fizemos um pacto, nunca pude sentir o perfume do teu amor, nem ver a cor, tanto menos o gosto. Das mãos quase nunca unidas, eu sabia, era tudo implícito, eu tinha que entender que naquele momento você me dizia "gosto de você". Vou te mostrar o que eu aprendi, ser sincera: explicitamente estou me despedindo, tô indo embora. Vou indo por aquelas bandas, o sol tá bem quente por lá!
Eu não sei de onde saiu você, nem em que momento eu comecei a criar em você a figura de alguém que pode me completar. Alguém tão simples, que vive falando um monte de besteiras e é feliz assim! E nada mais importa.
Não nego, você tem me tirado o sono, o sossêgo, o apetite, me faz encharcar o rosto e ficar com a ponta do nariz avermelhado. Você me faz sorrir bem alto, te beijar bem devargazinho, te olhar com carinha de criança maliciosa enquanto confabula brincadeiras que irão tirar o sossêgo de alguém.
Você é uma faísca que sai de mim, meu melhor verso, meu refrão, minha insônia sossegada, o remelexo da cintura, meu rímel borrado, o cheiro do meu suor, minha pele arrepiada, minha constante embriaguez...
Verborragias e clichês à parte, eu não consigo esconder o que sinto, apesar de não gostar do que é tão óbvio, depois de um tempo, de declarações implícitas e carícias escondidas, você me desconcertou e gosto de você descaradamente.